résumés en portugais (depuis 2011), traduits du français par Mariana Ferreira Gomes Stelko

N°38/2017 Gestação por substituição  

 

Afirmação e contestação do gênero no ensino médio profissionalizante

Séverine Depoilly

A partir de dados de uma enquete etnográfica conduzida em três escolas de ensino médio profissionalizante na periferia de Paris relativamente segregadas e pauperizadas, este artigo se propõe a analisar a maneira como se constituem as relações entre pares do mesmo sexo e do sexo oposto. Nós mostraremos primeiramente que essas relações são condicionadas por um sistema de atribuição identitária de gênero que convocam meninas e meninos a uma ordem de gênero tradicional. Em seguida, nós consideraremos, partindo de experiências de pesquisa similares, certas formas, mesmo parciais, de deslocamento, de inversão, de subversão desta ordem de gênero mobilizada principalmente pelas meninas.

 

Gênero e práticas jornalísticas na imprensa do ciclismo de montanha

Mélie Fraysse e Christine Mennesson

Este artigo se interessa às diferentes maneiras de fazer o gênero num contexto onde a dominação masculina se exerce plenamente, o da imprensa especializada em ciclismo de montanha. Mobilizando os conceitos de “regime de gênero” e de “masculinidade hegemônica” [Connell, 1983 ; 1987], tratamos de analisar as diferentes formas de masculinidades e de feminilidades “jornalísticas” presentes nas redações das revistas de ciclismo de montanha, e igualmente de estudar as condições sociais que contribuem na sua construção. Se o regime de gênero estudado valoriza a masculinidade hegemônica e a “feminilidade exacerbada”,  algumas entrevistadas, no entanto, adotam práticas profissionais que questionam os modelos de gênero. Os modos de socialização profissional têm importância central nesse processo.

 

A aceitação moral da maternidade de substituição Os ensinamentos da gestação por si ao serviço de mais justiça

Marlène Jouan

O debate sobre a maternidade de substituição, frequentemente reino de grande confusão, divide pelo menos o mesmo numero de feministas que o debate sobre a prostituição. Este artigo se concentra no argumento da autonomia das mulheres convocado neste debate, e propõe questionar a maternidade de substituição à luz do raciocínio moral que legitima a interrupção de gravidez, não contestada. A este fim, nós nos apoiamos essencialmente na literatura anglófona e analisamos a maternidade de substituição enquanto trabalho de “care”. O artigo mostra que sua aceitação moral depende do recurso a uma noção complexa de responsabilidade, capaz de superar o desafio da dominação de gênero que restringe nossas representações da maternidade, de reconhecer o risco de alienação que pesa sobre a gestante, e finalmente, considerar as relações estruturais de injustiça que formam a pratica que atravessa fronteiras da maternidade de substituição.

 

O baile na Espanha franquista : o jogo do amor mas não do acaso

Laura Nattiez

Se a primeira vista, o baile pode ser associado a um momento de festividade frívola para jovens, ele se revela um espaço particular de teatralização, que oferece um ângulo de análise fecundo das normas e dos comportamentos de gênero e do funcionamento do mercado matrimonial desde a primeira metade do século XX. Recolhendo relatos de vida em diferentes regiões espanholas, nós nos surpreendemos ao constatar que todas as mulheres nascidas nos anos 30 evocavam este evento lembrando sua juventude.  O estudo das entrevistas revela que o baile é o primeiro espaço de contato misto que permite o encontro dos futuros cônjuges. Tendo em conta o contexto, a atitude das jovens é estritamente normatizada e controlada pelo personagem incontornável do chaperon.

 

Discriminações contra homossexuais no mundo do trabalho na Suiça

Lorena Parini e Anouk Lloren

Este artigo é baseado numa pesquisa efetuada na Suíça em 2014-2015 sobre as discriminações sofridas por pessoas homossexuais no mundo do trabalho. A partir de um questionário difundido pela internet, as autoras analisam as formas e a frequência da homofobia assim como o impacto de diferentes fatores sociais como idade, visibilidade e contexto de trabalho (masculino, feminino ou misto) sobre os diversos tipos de discriminação. Os resultados mostram que as discriminações são uma realidade vivida por grande parte das e dos homossexuais na Suíça nas formas de estigmatização verbal, exclusão, assédio moral e sexual principalmente. Os resultados são aqui interpretados numa perspectiva de gênero que permite evidenciar a importância das normas de gênero nos comportamentos homofóbicos.

 

Diretores artísticos e administradoras: uma distribuição sexuada dos papéis nas companhias de teatro independentes

Serge Proust

As administradoras culturais assumem tarefas essenciais que permitem a viabilidade material das (pequenas) empresas artísticas, mas esse trabalho continua massivamente invisível. As mulheres são inscritas num laço de subordinação com os diretores artísticos, maioria homens, que associam, frequentemente, legitimidade artística e autoridade social. Enquanto que suas multiplas tarefas continuam sendo entendidas no prisma da atividade domestica, elas se adaptam às exigências dos campos artísticos, inclusive as que conduzem à confusão de tempos e espaços sociais.  Mas, elas não se beneficiam das mesmas gratificações materiais e sobretudo simbólicas monopolizadas pelos artistas. É por isso que, mesmo sendo conduzidas a aceitar uma serie de acordos, as administradoras tendem a reintroduzir as regras e os princípios da sociedade salarial.

 

Porque a maternidade de substituição dita ética não o pode ser

Martine Ségalen

Constatando as derivas das praticas da maternidade de substituição, pesquisadores, particulares, grupos militantes pleiteiam sua regularização, evocando uma maternidade de substituição “ética” ou “altruísta”, onde toda relação comercial será excluída. Este artigo analisa as causas do desenvolvimento da pratica, os responsáveis sociais que integram o discurso das mães de substituição, os termos que são agora empregados para tentar que elas desapareçam enquanto mães e mostra os efeitos da implementação de um mercado mundializado da maternidade de substituição. Recusando-se à instrumentalização do corpo feminino e à mercantilização das crianças, este artigo mostra que o que é ético é a abolição universal desta pratica.    

 

N°37/2017 Sem filhos    

 

Anne Gotman

A escolha de não ter filhos

Na maioria dos países avançados, o número de homens e mulheres sem filhos aumenta, em todo caso se analisamos em curto prazo. Nos interessaremos pelas pessoas que declaram não ter filhos voluntariamente. Vamos interrogar o perfil sociológico, as motivações, e as explicações a esse fenômeno. Mostraremos igualmente que ele acompanha uma reivindicação de legitimação fundada na liberdade de escolha e na igualdade de tratamento entre pessoas que tem filhos e que não tem.

Nassira Hedjerassi

Audre Lorde, l’outsider. A formação de uma poetisa e intectual feminista africana e americana

Este artigo trata sobre Aude Lorde, uma poetisa e figura emblemática da história das lutas e das ideias feministas e lésbicas africanas e americanas no século XX. Busco compreender a partir da sua infância e juventude como ela se construiu como intelectual no contexto estadunidense marcado por um sistema segracionista que limita o acesso das populações pretas de modo geral – e das mulheres pretas em particular – a uma certa quantidade de direitos, como a educação, o trabalho (em particular aos empregos qualificados e às profissões intelectuais elevadas). Apoiada num material autobibliográfico, fiz questão de pesquisar seu percurso de formação, situando-o no seu contexto socio-historico, segundo um quadro de leitura que articula o conjunto interconectado das relações sociais à obra (classe, raça, sexo).

 

Michaela Kreyenfeld et Dirk Konietzka

Filho ou emprego? Dilema das alemãs do Leste e do Oeste

Na Alemanha Oriental, antes da reunificação, menos de 10% das mulheres não tinham filhos, enquanto que na Alemanha Ocidental esse número aumentou regularmente até chegar em 20%. Este artigo se interessa a essa divergência, e se apoia em dados de um micro-recenseamento. Ele estuda as políticas sociais que influenciaram o emprego das mulheres e os modelos familiares antes da reunificação. Ele aborda também outras tendências e reformas mais recentes, especialmente o aperfeiçoamento da recepção de crianças pequenas e a reforma do beneficio de licença maternidade em 2017 . Se os modelos familiares e os regimes de emprego tenderam a alinhar-se nas Alemanhas reunificadas, diferenças comportamentos subsistem. Ainda hoje, é mais frequente mulheres não terem filhos no oeste do que no leste do país. As mulheres do leste da Alemanha trabalham em regra geral tempo completo, enquanto que a taxa de mães do oeste que trabalham a tempo completo só aumenta progressivamente.  

 

Véronique Marchand

Fazer feiras: comerciantes em La Paz e em Roubaix

A confrontação de duas enquetes etnográficas sobre as feiras em La Paz e em Roubaix ilustram como a questão das relações sociais de sexo se inserem num conjunto complexo de identificações étnicas, profissionais e de gênero que levam em conta a idade e o nível de instrução. Em La Paz, as feiras são ocupadas quase exclusivamente por mulheres oriundas de imigração, frequentemente analfabetas e responsáveis pelo orçamento familiar; a masculinização do comércio de rua a partir dos anos 80 aconteceu a contragosto das mulheres que desejavam preservar seu quase monopólio. Em Roubaix, os feirantes são majoritariamente homens, originários do norte da África, excluídos do mercado de trabalho assalariado. As feirantes são minoria, mulheres sem diplomas e frequentemente as únicas responsáveis pelo orçamento familiar. Nos dois casos, a feira se revela como uma forma de trabalho não assalariado que permite a emancipação das mulheres perante os homens.  

 

Helen Peterson

« Eu nunca serei do lar ». A rejeição da maternidade na Suécia

Temos o costume de explicar a decisão de algumas mulheres de não ter filhos pelas desigualdades existentes na divisão dos trabalhos domésticos e parentais e por aspectos ligados à carreira profissional das mulheres.  Este artigo busca compreender se a percepção das desigualdades de gênero no mercado de trabalho e na esfera privada fazem parte das razões subjacentes de algumas mulheres que rejeitam a maternidade na Suécia, uma das sociedades do mundo onde a igualdade entre homens e mulheres é mais avançada. Ele se fundamenta em uma serie de entrevistas com mulheres suecas que decidiram não ter filhos para analisar a maneira que elas relacionam essa decisão à desigualdade de gênero na sociedade em que vivem, no espaço profissional e familiar, onde a falta de igualdade influenciou a rejeição à maternidade. Para as mulheres entrevistas, a maternidade ameaça a igualdade de estatus no mercado de trabalho assim como suas relações com os homens.

n°36/2016 = A proeza e o risco   Alain Chenu e Olivier Martin O teto de vidro no ensino superior de sociologia e demografia A feminilização do ensino superior francês cresce: as disciplinas “sociologia e demografia” ilustram bem essa evolução, pois em 2012 44% dos professores pesquisadores em “sociologia e demografia” eram mulheres e em 1984 eram somente 24%. No entanto, esta feminilização crescente esconde a persistência de um teto de vidro. Este artigo mostra sua existência e procura explicá-lo. Para isso, a carreira de professor pesquisador é analisada etapa por etapa (qualificação, acesso aos postos de professor adjunto das universidades, eventual qualificação como professor titular ou acesso ao corpo docente) com o auxilio de dados individuais concernentes ao período 1984-2013. Se o acesso ao corpo de professor adjunto não parece estar (ou não mais) comprometido por uma desigualdade desfavorável às mulheres, o teto de vidro está situado no acesso ao corpo de professores titulares.   Antoine Duarte e Isabelle Gernet Heroísmo e defesas contra o sofrimento dos encarregados/encarregadas do socorro nas pistas de esqui. Apoiado numa pesquisa clínica em psicodinâmica do trabalho iniciada depois de um acidente fatal de um encarregado de socorro em uma estação de esqui, este artigo interroga os laços entre defesas coletivas estruturadas pela virilidade e a luta de uma mulher para defender sua identidade. Segundo os autores, esses laços só podem ser entendidos a partir dos processos psíquicos mobilizados na confrontação do sujeito com as limitações e obrigações do trabalho. Para isso, tratam o caso de Alexandra, a única mulher a exercer essa profissão arriscada em um coletivo de homens.   Angèle Grövel e Jasmina Stevanovic Atenção : mulheres a bordo ! Riscos e perigos da feminilização da profissão de Oficial da Marinha mercante A profissão de Oficial da Marinha Mercante é considerada e vivida como uma profissão de risco. A navegação nos navios de comércio apresenta dois grandes de perigos: o primeiro causado pelo mar, elemento imprevisível por excelência; e o segundo advém da imersão prolongada da tripulação em um espaço fechado e restrito. A composição exclusivamente masculina das tripulações era até recentemente uma característica da profissão. A recente feminilização é considerada tanto como uma ferramenta de manutenção da ordem de gênero como uma ameaça a conter. Partindo de duas enquetes realizadas com Oficiais, este artigo interroga os usos e os efeitos da feminilização nas relações e nas condutas de risco a bordo dos navios.   Florence Legendre Tornar-se artista de circo: o aprendizado do risco O risco ocupa um lugar central nas atividades de circo, principalmente porque ele compromete a integridade corporal dos artistas. As atividades físicas ditas a risco se apoiam em normas e valores  eminentemente masculinos mesmo o circo sendo ao mesmo tempo um espaço relativamente misto e claramente marcado pelo gênero, é portanto pertinente interrogar as experiências de aprendizagem da relação com o risco, como princípio organizador da socialização profissional dos e das artistas que logram a profissão. Como nos tornamos artistas de circo no prisma desses riscos profissionais? Os/as estudantes desenvolvem ao longo da trajetória de formação um trabalho biográfico de ajuste aos três elementos que emergem de suas narrações: (re)definição dos riscos profissionais, aprendizagem de controle dos riscos corporais e construção de uma postura de artista de circo.   Juliette Rennes Cocheiras parisienses, o risco como espetáculo Em Paris, dia 21 de fevereiro de 1907, várias dezenas de fotógrafos e de jornalistas se empurravam para serem os primeiros clientes das duas primeiras mulheres cocheiras em Paris. Desde 1906, as cocheiras então em aprendizagem, suscitavam reportagens e tornavam-se personagens de ficção nos espetáculos de revista, desenhos satíricos, primeiros filmes das empresas Pathé e Gaumont. Este artigo compara esta proliferação de artigos visuais e mediáticos sobre “a mulher cocheira” com arquivos do estado civil, do recenseamento, da estatística municipal e da prefeitura de polícia para investigar o processo pelo qual essas mulheres, frequentemente oriundas de classes de trabalhadores rurais, acedem a uma corporação percebida como masculina pela sua composição estatística e sua identidade social. O risco e a proeza encenados neste espetáculo das mulheres cocheiras, essencialmente destinado a divertir um público burguês, são então confrontados com os riscos efetivos que corriam essas mulheres particularmente visíveis e expostas no espaço parisiense enquanto mulheres minoritárias numa profissão masculina.   Denis Ruellan Repórteres de guerra Este estudo interroga a efetividade da feminilização das reportagens jornalísticas em áreas de conflito, a resistência ao mito da masculinidade desta atividade, a persistência de papéis diferenciados e de atribuições de gênero, e o saldo dos engajamentos e dos benefícios em termos de carreira profissional e pessoal. Mesmo se hoje os repórteres de guerra são frequentemente mulheres, a dinâmica de gênero, o processo de diferenciação e hierarquização das identidades continuam vigentes, penalizando as mulheres. Este estudo, apoiado num conhecimento histórico do jornalismo e da reportagem, é oriundo de uma enquete com entrevistas com cerca de vinte repórteres na França.   N° 35/2016 Mulheres dirigentes Anne-Françoise Bender, Rey Dang et Marie José Scotto Os perfis das mulheres membros de conselhos de administração na França Neste artigo, nós estudamos as variáveis indicadoras do capital humano e do capital social das mulheres e dos homens membros dos conselhos de administração das empresas do SBF[i] 120 em 2013, ou seja, dois anos depois da promulgação da lei sobre as quotas. Baseando-nos em pesquisas anteriores realizadas na França e nos Estados Unidos, nós comparamos os perfis demográficos, educacionais e a experiência profissional dos 1250 homens e mulheres membros dos conselhos do SBF 120 em 2013. Os resultados mostram que as mulheres têm percursos de profissionais e de formação semelhantes aos dos homens, comparado com um estudo similar que realizamos com dados de 2010. No entanto, algumas diferenças persistem entre homens e mulheres, quanto à natureza da experiência profissional e o tipo de mandatos exercidos. As explicações e consequências possíveis desses resultados são discutidas no artigo.   Sophie Boussard Sobreviventes: disposições improváveis de mulheres dirigentes na finança Ser uma mulher dirigente no mercado financeiro das fusões-aquisições é o resultado de duas proezas: conseguir entrar e permanecer em uma profissão explicitamente rotulada como masculina e alcançar os mais altos cargos. Este artigo interroga esta proeza, a partir de uma vasta enquete que combinou a base de dados dos atores que interviram em fusões-aquisições em 2010, de entrevistas biográficas e de observações do trabalho. Ele mostra como o ethos profissional do grupo, explicitamente masculino, atua como obstáculo restringindo o acesso das mulheres às posições de dirigentes. O acesso das mulheres depende então de uma combinação improvável de disposições que permite a adaptação a este ethos profissional masculino.   Alban Jacquemart, Fanny Le Mancq e Sophie Pochic Mulheres altas funcionárias do Estado na França, o advento de uma igualdade elitista Trazidas pela difusão de uma “gramática paritária”, as políticas de igualdade profissional se desenvolveram na função pública. A partir de uma enquete nos serviços de Bercy, este artigo evidencia as oportunidades seletivas de promoção oferecidas pelo contorno elitista dessas políticas : pouquíssimas mulheres, socialmente homogêneas, frequentemente egressas da Escola Nacional de Administração (ENA), conseguem quebrar o telhado de vidro, com a condição de provar sua dedicação à administração pública, à gestão pública e aceitar postos absolutamente absorventes ; ao mesmo tempo, as reformas do Estado e a competição reforçada pelos postos fragilizam as possibilidades de ascensão profissional de mulheres chefes nos serviços de gestão local, não egressas da ENA e vindas de meios sociais menos favorecidos.   Morgane Kuehni As migalhas do salariado : o engajamento ao trabalho dos sem emprego Baseada em uma enquete empírica com desempregados e desempregadas inscritos num programa de emprego temporário na Suíça romanda, o artigo questiona as razões evocadas para « assumir o posto » numa situação de trabalho às margens do salariado.  O acesso às trajetórias biográficas e às vivências permite mostrar que os limites dessas medidas de inserção profissional não são suficientes para explicar o engajamento ao trabalho dos sem emprego: os indivíduos evocam sempre razões múltiplas, que articulam dimensões materiais e simbólicas. A mobilização de uma perspectiva de gênero revela as diferentes relações de dominação às quais são submetidas as mulheres desempregadas tanto na esfera profissional quanto privada. Permitindo assim a problematização das questões sexuadas que designam o engajamento neste tipo de programa, especialmente o risco de voltar à inatividade ou desemprego.   Marion Rabier O céu de chumbo das organizações patronais Este artigo analisa o lugar das mulheres no espaço de representação patronal. Depois de ter apresentado os mecanismos de adesão às organizações patronais, o diagnostico do lugar das mulheres mostra que as empresárias são sub-representadas: seja em mandatos internos ou externos, elas são confrontadas às grandes restrições e ocupam menos de 15% dos postos com responsabilidades. Estabelecer o “pobre índice” da sub-representação das mulheres neste espaço permite  compreender elementos do seu funcionamento, principalmente concernentes às correlações de força para o acesso a certos mandatos, e amplamente, também a divisão sexuada do trabalho de representação patronal. Nas organizações patronais, as tendências vistas nas outras organizações políticas são bastante claras, as mulheres ficam nos mandatos sociais e nos mandatos com menor prestígio. São desigualdades importantes e aparentemente as organizações pouco se preocupam.   Hyacinthe Ravet Maestrinas, o tempo das pioneiras não acabou! Sim, de forma geral, a música permanece o espaço menos feminizado dos ofícios da criação e interpretação artística, a direção de um conjunto sinfônico é um caso paroxístico. Poucas mulheres são maestrinas. A grande maioria não consegue ganhar espaço no meio e ser reconhecida como os maestros. Estudar este universo de poder super hierarquizado e super. “masculino”, que resiste à entrada das musicistas, permite indagar questões simbólicas em torno do poder de criação. Permite interrogar a maneira pela qual o gênero atravessa os domínios de poder, como em todos universos de trabalho e de aprendizagem,  e –paradoxalmente? – os domínios da criação. Permite também observar a maneira pela qual o gênero das práticas sexuadas progressivamente se transforma. [i]               Índice da Sociedade de bolsas francesa.

N° 34/2015 Corpos dominados Gilles Combaz e Christine Burgevin A direção das escolas públicas na França Na França, desde o começo dos anos 2000, algumas medidas legislativas foram tomadas para promover o acesso das mulheres aos cargos dirigentes na esfera profissional. Os dados disponíveis mostram que, por enquanto, este objetivo está longe de ser atingido, principalmente no que concerne os cargos de gestão na esfera pública. Por outro lado, o acesso a cargos menos prestigiosos não se submete a essa tendência. É importante verificar em que medida a direção das escolas representa uma real oportunidade para as mulheres. Para essa análise, um dispositivo metodológico triplo foi elaborado: uma enquete exaustiva em 22 departamentos franceses constatou a repartição de sexos nas diferentes funções exercidas no ensino básico; uma pesquisa nacional realizada com questionários e uma série de 28 entrevistas foram realizadas para identificar os determinantes sociais para o acesso à função de direção. Delphine Gardey e Iulia Hasdeu Este obscuro sujeito do desejo Este artigo se interessa à conceptualização da sexualidade feminina no mundo ocidental a partir da segunda metade do século XIX. Ele retraça a maneira pela qual os saberes e as práticas medicais percebem o desejo feminino, suas falhas e disfunções. De objetos do desejo, as mulheres, um dia, são sujeitos. É então possível reivindicar o desejo e o prazer femininos como uma realidade, um bem e um direito. As noções de “disfunção” ou de “falha” são concebidas nos anos 70 uma vez que a normalidade do prazer feminino foi admitida. Avaliando do passado ao presente, trata-se de voltar às formas de medicalização da sexualidade e interrogar certos círculos discursivos e práticos. Trata-se também de evidenciar a parte atribuída à biologia e à cultura, à fisiologia ou à “psique” na definição de sexualidade feminina no espaço ocidental. Trata-se igualmente de situar e caracterizar o modelo biológico contemporâneo de sexualidade e como ele contribui a definir as esferas tanto íntimas como sociais. Laura Piccand Medir a puberdade. A medicalização da adolescência, Suíça 1950-1970 Entre 1954 e o final dos anos 70, um estudo longitudinal sobre o crescimento e o desenvolvimento da criança dita normal foi feito em Zurique. Medidos, fotografados, radiografados, aproximadamente 300 meninos e meninas da cidade de Zurique participaram então, durante mais de 20 anos, desta primeira enquete do gênero na Europa. Este artigo mostra como este estudo participa da criação de normas de gênero contemporâneas em torno da puberdade. Ele evoca primeiramente o contexto particular do aparecimento de estudos que participam de uma iniciativa descritiva e sobretudo de uma delimitação estatística do corpo humano e de seu desenvolvimento. Em seguida, a partir do exemplo de dois artefatos que permitem a avaliação da puberdade (os estados de Tanner e o orquiômetro de Prader) são discutidas as maneiras pelas quais esse tipo de pesquisa contribui na produção da puberdade como objeto científico e medical e no estabelecimento de normas de desenvolvimento, participando assim do controle dos corpos reprodutivos. Chikako Takeshita Biopolítica do DIU (dispositivo intrauterino) Baseado em exemplos de uso do DIU na China, no Vietnã, na Indonésia, em Bangladesch, no Tajiquistão, no Uzbequistão e na Nigéria este artigo se interessa às diversas maneiras que as mulheres dos países do Sul, conseguiram conquistar a capacidade de agir no âmbito reprodutivo, adotando ou rejeitando este dispositivo. Os objetivos e comportamentos reprodutivos dessas mulheres são influenciados por uma serie de pressões concorrentes vindas da família, da situação econômica e dos papéis sociais de sexo, assim como dos valores patriarcais dominantes e das políticas governamentais neomalthusianas. Dado que se trata de um dispositivo contraceptivo duradouro, controlado pelo fabricante, facilmente reversível e discreto, o DIU foi defendido tanto por atores feministas como por antifeministas. Este artigo destaca casos individuais nos quais este dispositivo contraceptivo teve um papel central permitindo às mulheres um melhor controle das suas vidas reprodutivas justamente onde a capacidade de agir era limitada. Michela Villani O sexo das mulheres migrantes. Excisões no Sul, clitoroplatias no Norte Originalmente definida como problema de saúde pública, a excisão do clitóris tornou-se desde os anos 2000 objeto de uma política de reparação da sexualidade. A genealogia desse novo crime (as mutilações sexuais) e o advento de uma nova deficiência (sexualidade sem clitóris) são estudados aqui numa perspectiva pós-colonial que faz dialogar os contextos cognitivos “daqui” e “de lá”. O percurso de uma normalidade social estabelecida por um ritual (excisão do clitóris) carrega a forma de uma anomalia corporal (mutilação) ou mesmo de uma anormalidade sexual (deficiência). Este artigo percorre experiências pessoais e sexuais das mulheres migrantes e das meninas migrantes da África subsaariana que moram na França e que formularam um pedido de reconstrução do clitóris no serviço hospitalar francês. As trajetórias desses dois grupos são estudadas num contexto de globalização que leva em conta as dinâmicas migratórias: a medicina se impõe na circulação de saberes e toma forma de justiça de procedimentos apta a promover a igualdade nos modelos de gênero recorrendo a reparações corporais e sexuais. Marilène Vuille A invenção do parto sem dor na França, 1950-1980 O método psicoprofilático de parto sem dor, desenvolvido na União Soviética, foi introduzido na França no começo dos anos 50 por médicos próximos do Partido Comunista francês. Além do objetivo medical –suprimir a dor sem recorrer a meios farmacológicos, ensinando as mulheres a parir- trazia o objetivo político de participar ao advento de uma sociedade socialista. Apesar das altas ambições, este método não se apoiava sobre tecnologias de ponta, mas sobre técnicas modestas e sobre dispositivos usuais. Estas técnicas não atingiram nem o objetivo medical (erradicar a dor) nem o objetivo politico (mudar a sociedade). No entanto essas técnicas tiveram efeitos importantes e duradouros, reforçando a autoridade profissional sobre as mulheres gravidas e habituando-as às praticas medicais. O estudo do parto sem dor permite assim repensar a historia do nascimento além da oposição clássica entre, de um lado, instrumentos, tecnologias e produtos farmacológicos julgados responsáveis da medicalização do nascimento e da instrumentalização do corpo das mulheres, e, de outro, das técnicas pouco instrumentadas, mais “naturais”, estimadas capazes de apresentar uma alternativa à medicalização e respeitar a autonomia das mulheres.   N° 33/2015 O gênero, a cidade Stéphane Le Lay Ser lixeiro(a) em Paris A profissão de lixeiro em Paris, mesmo se classificada na categoria de operário não qualificado, não pode ser compreendida sem a aná­lise de dimensões pouco levadas em conta nas qualificações profissionais, pois elas tratam do “drama social do trabalho” nas ati­­vi­dades restritas ao quadro do serviço (ao) público. Essas di­men­sões relacionais e afetivas são observadas atentamente pela municipalidade, como o efeito de duas grandes dinâmicas políti­cas. A primeira é ligada ao emprego das mulheres, abertura essa que trouxe mudanças ao trabalho. A segunda vem do aumento das exigências de limpeza: uma melhor qualidade de serviço e uma atenção à “imagem da cidade” são esperadas dos agentes de lim­peza. Assim, a profissão de lixeiro interroga à sua maneira o pro­ces­so de desagregação da classe operária, formando uma figura de “operário (a) de serviço” típico das classes populares atuais. Sophie Louargant Pensar a metrópole com o gênero As questões urbanas e territoriais não oferecem suficientemente e regularmente espaço para o debate sobre as perspectivas de gêne­ro. Comumente associada a um debate societal, a questão de gênero não teria então lugar na conceptualização do fato urbano e metropolitano, ao menos na concepção hexagonal, que é ao mesmo tempo reflexiva e operacional no que concerne as políticas terri­toriais e urbanas. A maneira como os espaços são ocupados, como é permitido ocupar estes espaços nas formas de urbanidades contem­porâneas mostra que as questões de gênero se inscrevem na história das lutas sociais urbanas, mas também numa ação política contemporânea trazida pelas ideologias do bem-estar urbano, da ecologia urbana. Este artigo retraça os efeitos concomitantes das utopias feministas e ecologistas no campo atual da concepção urbana. A análise dos usos dos espaços da natureza na aglome­ração de Grenoble explicita os efeitos da concepção androcentrada e hetenormativa dos espaços da natureza refe­rente aos usos, representações e gestão dos lugares. Maud Navarre Tomar a palavra em sessão plenária Este artigo analisa as tomadas de palavra pelas mulheres e pelos homens nas sessões plenárias de três instituições políticas locais. O objetivo é compreender em que medida as modalidades de inter­venção oral, que têm um papel central na aquisição de legitimi­dade para o exercício de cargos eletivos, diferenciam-se em função do sexo, levando em conta: a observação das interações, a análise quantitativa das intervenções orais e das entrevistas sobre esse exercício oratório. Os custos de tomar a palavra são mais elevados para as mulheres do que para os homens. Essas diferen­ças são acentuadas nas assembleias mistas. As maiores dificul­dades vivenciadas pelas mulheres levam-nas a mobilizar compor­tamentos alternativos, variáveis segundo a experiência política. Yves Raibaud Sustentável mas desigual: a cidade Este artigo interroga projetos urbanos que parecem encontrar consenso nas cidades europeias (penalização do tráfico automobi­lís­tico urbano, estímulo ao uso de motos e motocicletas, de bicicletas e de caminhada, de trens elétricos e de outros transportes coletivos, de compartilhamento de carros particulares) do ponto de vista das desigualdades entre mulheres e homens, partindo de uma série de pesquisas feitas sobre a aglomeração urbana de Bordeaux (França). A análise de uma pesquisa sobre mobilidades mostra que as mulheres seriam desfavorecidas por essas medidas, tanto pelas tarefas incumbidas a elas (acompanhamento das crianças, pessoas idosas, compras etc.),em razão de terem menor habilidade para os transportes alternativos, ou pelo sentimento de vulnerabilidade no espaço público (medo de agressão em alguns bairros e durante a noite). Quem se beneficia da cidade susten­tável? Como e onde são decididos esses novos hábitos? Como são implementadas as mudanças necessárias à transição a esta cidade descrita por seus incentivadores como suave, tranquila, bonita, calma? Este artigo apresenta a hipótese que as boas práticas da cidade sustentável parecem muito com as novas estampas da dominação masculina LidewijTummers Estereótipos de gênero na prática do urbanismo Tradicionalmente, os projetos de organização dos territórios “inclu­sivos” focavam nos “grupos vulneráveis” como “elemento deco­rativo” e não como atores. Nos anos 90, pesquisadoras feministas europeias e urbanistas desenvolveram novos métodos para suprir essa carência. A avaliação dessas novas abordagens de planificação, fundadas na “perspectiva integrada de igualdade”, mostra que o gênero é levado em conta de forma limitada, e dentro do que convém ser explicado. Esta contribuição questiona, nas profissões do desenvolvimento urbano, os estereótipos ligados ao gênero e as hipóteses que podem reforçar os papéis de sexo ligados ao gênero. Ela discute quatro tipos de estratégias nas políticas integradas de igualdade de sexos. Essas evidenciam os efeitos dos códigos de gênero na prática, por exemplo sobre a densidade, o uso misto das ruas, mas também sobre as questões de serviço, de segurança e de acessibilidade. Além disso, o artigo dá visibilidade ao potencial das demandas sensíveis ao gênero, tanto como força inovadora para a pesquisa em urbanismo como para relações entre dinâmicas sociais e espaciais.

n° 31/2014 Tania Angeloff e Céline Bessière com a participação de Arnaud Bonduelle, Jéromine Dabert e Gaston Laval Ensinar gênero: um dever de dissidência Este artigo trata da prática de uma cadeira sobre gênero introduzida no Master 1 de uma universidade parisiense, Paris-Dauphine, especializada em economia, em gestão e em finanças. A originalidade do artigo está no confronto dos pontos de vista de duas professoras, que estavam na origem deste curso de introdução ao gênero em sociologia e de três estudantes da última turma que se dispuseram ao exercício reflexivo e retrospectivo da seguinte questão: o que faz o gênero aos estudantes? E inversa­mente, que fazem os estudantes de uma cadeira como esta de gênero, no contexto de uma formação em ciências sociais tão abrangente? Distante de um artigo teórico, trata-se de partir dos relatos estudantis concretos para se interrogar sobre a pedagogia do gênero em sociologia, suas questões políticas e científicas, seus limites, sua (des)legitimação. Neste escrito polifônico, Tania Angeloff e Céline Bessière tentam avaliar suas práticas de profes­soras de gênero – prática marginal no contexto institucional –, e de colocar em perspectiva os três relatos individuais das/dos estu­dantes, entre os quais um é bastante crítico. Xavier Cinçon e Agnès Terrieux Substituir as agricultoras:uma história da licença maternidade na agricultura A história da licença maternidade é a de uma politica social colocada ao serviço dos interesses masculinos por meio de instru­mentos de ação pública de gênero. O recurso imposto pelos serviços de substituição agrícola, plenamente voltados à substituição dos homens agricultores, é reforçado por um procedi­mento subordinan­do à utilização da prestação às decisões do chefe da exploração agrícola. O que acarretou no proveito oportunista do explorador da mão-de-obra assalariada, de uma política destinada à substituição de sua cônjuge, contribuindo assim a privá-la de uma política destinada a ela mesma, para fornecer recursos de desenvolvimento à atividade de substituição. A tal ponto que, em seguida, os serviços de substi­tuição tomaram para si o engajamento em melhorar este direito das mulheres, substituindo assim as porta-vozes femininas, no objetivo de consolidar uma renda indispensável para a profissionalização das mulheres.Érika Flahault, Annie Dussuet e Dominique Loiseau Emprego associativo, feminismo e gênero O feminismo dos anos 70 conduziu a criação de redes associativas hoje incontornáveis: Planejamento Familiar, Centro de informações sobre os Direitos das Mulheres e das Famílias, Federação Nacional Solidariedade Mulheres. Estas redes, produtoras de um serviço de defesa e de acesso aos direitos para as mulheres, ocupam uma função de “serviço público”, graças ao emprego de assalariados principal­mente de mulheres. A partir dos resultados de uma pesquisa qualitativa monográfica com as associações dessas redes, nós mostra­remos que, se podemos observar nestas organizações condi­ções de emprego frequentemente precárias, é preciso, sem dúvida, relacionar essas constatações às condições de emprego nas quais estão inseridas as mulheres em outros setores da economia. Paradoxal­mente, parece que estas organizações feministas simples­mente reproduzem as normas de emprego estruturadas pelo gênero.Nathalie Lapeyre Um ensinamento único no seu gênero Este artigo visa clarificar alguns elementos de reflexão oriundos de uma experiência singular de ensinamento de gênero na universidade. A presente análise de um processo de institucionalização dos estudos feministas esta ancorada essencialmente na primeira formação profissional francesa dedicada ao gênero. Esta última é centrada na questão da análise das políticas sociais sob o prisma das relações sociais de sexo. Ela foi criada há aproximadamente vinte anos por colegas universitárias e profissionais, pioneiras no departamento de sociologia. Não perdendo de vista que o gênero é muito mais que um ensinamento, pela sua dimensão científica, simbólica e política, nós enfatizamos a gênese dessa historia coletiva, as realizações e conquistas num contexto de oportunidades, assim como os verda­deiros desafios a enfrentar. Os efeitos sociais da implementação de um mestrado profissional, ou o espaço ocupado pelo gênero fora da universidade, serão igualmente abordados, principalmente sob o enfoque da dinâmica atual das questões de igualdade homens-mulheres.Michelle Perrot História das mulheres, história do gênero Este artigo lembra que nos anos 70, em Paris-Diderot, a criação dos primeiros cursos sobre as mulheres tornou necessárias as primeiras pesquisas e as primeiras produções de saber, já que as mulheres não apareciam na história acadêmica. Era então necessário dar visibilidade e inovar os recursos e métodos para criar novos saberes. Muito rapidamente as pesquisadoras passaram da história das mulheres para a história do gênero, afirmando que não é possível conceber a história das mulheres sem refletir sobre a relação com o outro sexo. Essas historiadoras desenvolveram suas pesquisas discutindo com a sociologia, com os estudos anglos americanos e com historiadoras americanas, em particular, com aquelas que trabalham no âmbito francês. Este artigo testemunha o entusiasmo dessa época pioneira. William Poulin-Deltour O que resta dos nossos cursos sobre gênero? Refletindo sobre minha prática pedagógica de professora de Gender Studies numa pequena universidade da Nova Inglaterra, eu retorno à ideia de que os Estados Unidos seriam a Meca mundial dos estudos sobre gênero. Apesar deste campo de estudos parecer efetivamente prosperar aqui, as aparências podem nos enganar. Eu analiso os conhecimentos dos estudantes americanos sobre o gênero no começo e no fim do curso de Gender Studies . Minha experiência revela que, a maioria deles, chega ao curso com uma visão essencialista de um sistema de gênero heterossexual e binário, e que, sobrecarregá-los com textos de Judith Butler e de Michel Foucault não é o melhor meio de subverter as ideias de lugar comum. No final do artigo, eu chego à conclusão que talvez seja a minha própria pedagogia que deva mudar para encorajar os estudantes a pesquisar sobre o gênero, explorando os recursos originais e contemporâneos, para que eles integrem não tanto o que é o gênero, mas o que ele faz.Muriel Salle Formação dos professores: as resistências ao gênero A implementação do programa do abcd da Igualdade, em outubro de 2013, num contexto de tensão decorrente do voto da lei sobre o casamento dito “por todos”, colocou em destaque na mídia as ações pedagógicas que visam promover a igualdade entre meninas e meninos no sistema escolar, algumas delas, no entanto, já antigas. Na Academia de Lyon, há mais de 10 anos, os professores recebem uma formação sobre as problemáticas de gênero e igualdade entre os sexos. Essas formações, mesmo que globalmente muito bem recebidas, às vezes suscitam resistências, ainda que os professores sejam muito interessados e se declarem preocupados em promover a igualdade meninas/meninos e mulheres/homens. É à análise desse paradoxo que consagra este artigo que pretende propor uma tipologia dessas resistências e sugestões para remediá-las.n° 32/2014 Mathieu Caulier O preço do engajamento Assalariados e militantes no México Depois das conferências da onu no Cairo e em Pequim (1994 e 1995), as normas “de gênero” se consolidaram como parte essen­cial do discurso democrático ocidental, ao qual o governo mexi­cano subscreveu formalmente. Diante dos custos para o desenvol­vimento das novas políticas “com perspectiva de gênero”, o Estado e as unidades federativas recorreram a grupos de mulheres e orga­ni­zações feministas para desenvolver as novas políticas públicas repletas de normas internacionais. Sociólogos, psicólogos, peda­gogos e médicos – assalariados de ong’s contribuem no desenvol­vi­mento dos programas públicos que são principalmente de saúde, mas também, programas educativos concernentes à educação sexual. O fato dos assalariados serem frequentemente militantes permite que a precariedade seja vivida como engajamento, engaja­mento este que é usado pelos poderes públicos para diminuir os custos dos programas sociais. Yoann Demoli As mulheres pegam o volante Ainda que a popularização do automóvel tenha sido estudada pela sociologia dos anos 70, as análises permaneciam indiferentes às diferenças de gênero. E nesta época, as mulheres estavam excluí­das dessa massificação. A apropriação dos automóveis pelas mulhe­res se revela ambivalente, levando-nos ao questionamento sobre como apreender um possível paralelismo de práticas de mobilidade entre homens e mulheres. Se o automóvel foi frequen­te­mente considerado um meio emancipatório, ele pode se revelar uma ferramenta para prolongação dos papéis sexuados nos domicílios. Da mesma forma que os aparelhos domésticos não são necessariamente emancipatórios, mas frequentemente, intensifi­ca­dores do trabalho doméstico, o automóvel talvez tenha se tornado o veículo do prolongamento do trabalho doméstico. Nós tentaremos responder a estas questões analisando dados de en­quetes sobre o setor de transportes da Insee feitas entre 1980 e 2008, o outorgamento de carteiras de habilitação e às lógicas de uso do automóvel pelas mulheres.Isabel Georges Reconfiguração das políticas sociais no Brasil Este artigo propõe uma reflexão socio-histórica sobre o papel da assistência no estado atual da democracia no Brasil, a partir da relação com o lugar ocupado pelas mulheres no seio dessas “novas” políticas sociais. Ele analisa a implementação dessas políticas no nível local, em São Paulo, a metrópole mais dinâmica do país. A partir do estudo da organização do setor de assistência em São Paulo, a análise interroga as relações entre os dilemas dos agentes de execução na realização do trabalho e o lugar da mobili­dade social, para compreender os avanços e os limites des­sas novas políticas sociais. Mostraremos então, como a aquisição de algumas vantagens relativas em termos de acesso ao emprego para algumas, e o acesso, via promessa, de uma mobilidade social ascendente relativa para outras, tornam a generalização do tra­balho precário socialmente aceitável e justificam a institu­ciona­lização da discriminação por meio de políticas públicas de “inclusão”, como as de assistência.Manuella Roupnel-Fuentes Sofrimento no desemprego Por muito tempo os danos do desemprego de massa foram apre­en­didos a partir do masculino, as formas das mulheres de viverem a privação de emprego sendo pouco estudadas e mal conhecidas. Nesta pesquisa feita com homens e mulheres demitid-o-a-s, de fábricas fechadas e não retomadas de Moulinex na Baixa-Nor­mandia, aparece a singularidade feminina na experiência do desem­prego. Em comparação com a vivência dos homens, o sofrimento das desempregadas é mais marcado pela prevalência de perturbações de saúde, isolamento social e confinamento domi­ciliar e indenitário. Os homens ficam, com mais frequência, dis­tan­tes desses sentimentos, em parte, em razão de terem maiores chances de reinserção profissional, mas também, graças à manu­tenção das antigas relações profissionais. A experiência do desem­prego não é redutível à privação de emprego, pois acompanha claramente uma ruptura que abrange uma infinidade de áreas da vida, especialmente a saúde, as relações e identidades sociais. Lucie Schoch e Fabien Ohl Mulheres no jornalismo esportivo na Suíça Este artigo apresenta os resultados de uma enquete sócio-etno­gráfica na imprensa cotidiana esportiva da Suíça romanda. Ele salienta dois registros vocacionais de jornalistas de esporte, num contexto de feminilização desse grupo profissional: os homens evocam uma vocação para o jornalismo esportivo atrelado à pai­xão pelo esporte, e as mulheres se mostram mais propensas a atribuírem um amor à escrita e ao jornalismo. Essas vocações contrastadas têm um papel fundamental nas relações de poder entre os sexos nas redações esportivas: constroem uma definição legítima da profissão em torno da paixão pelo esporte, e impedem a conversão de mulheres jornalistas nesse modelo de socialização profissional, dessa forma, as mulheres são designadas a posições subalternas e excluídas dos cargos de decisão nas redações. Shi Lu Figuras de migrant-e-s na China Este artigo se apoia numa entrevista com uma mulher migrante em Yiwu no estado de Zhejiang. Através desse relato de vida de comerciante, procuraremos investigar o fenômeno migratório de uma zona rural para uma outra e do campo às pequenas cidades. O percurso migratório e profissional desta mulher migrante nos ajudará a compreender como os migrantes acumulam e articulam seus recursos econômicos e sociais e usam suas redes de contato e competências para inserção econômica e social.

N° 29, 2013 Manter-se no trabalho Jyothsna Latha Belliappa « Ela era muito extrovertida »: assédio sexual e conduta feminina O setor das novas tecnologias na Índia tem a reputação de acolher favoravelmente as mulheres que são recrutadas, inclu­sive uma política progressista em relação a elas foi implemen­tada e o setor assumiu uma posição veementemente contrária à discriminação e ao assédio sexual. A despeito da existência de regulamentações e proce­dimentos, os casos de assédio sexual não desapareceram e precisam ser estudados. Este artigo se baseia numa pesquisa qualitativa para estudar as experiências de mulheres que trabalham nos setores de novas tecnologias na Índia assim como as respostas das gerência às denúncias de assédio sexual. O artigo trata principalmente da influên­cia das normas culturais relativas aos comportamentos das mulheres nas posturas tomadas pelas chefias nos casos de denúncias de assédio. O artigo conclui que se a adoção de regulamentações pode constituir uma etapa decisiva na criação de um ambiente profissional propício às mulheres, isso não é suficiente para contrabalancear os efeitos de uma cultura androcêntrica tanto nas posturas das chefias como nas das vítimas. Sandrine Caroly, Marie-Eve Major, Isabelle Probst e Anne-Françoise Molinié O gênero das lesões por esforço repetitivo (ler) Este artigo trata da validade da análise ergonômica da atividade para compreender a ocorrência de distúrbios osteomusculares ligados ao trabalho, assim como das estratégias desenvolvidas pelas trabalha­doras e trabalhadores com intuito de controlar a dor. Após a realiza­ção de um levantamento estatístico, dois casos de pesquisa-inter­ven­ção, um com homens e mulheres no setor automobilístico e outro com mulheres no setor agroalimentar aparecem as diferenças de exposição à ler de acordo com a divisão sexual do trabalho. A integração de uma perspectiva de gênero na ergonomia traz um novo olhar sobre o trabalho dessas mulheres e sobre o corpo em sofrimento no trabalho. Marianne De Troyer, Guy Lebeer e Esteban Martinez A precariedade das operárias de limpeza na Bélgica As condições de trabalho no setor de limpeza são muito penosas e constrangedoras, trata-se do resultado das desregulamen­ta­ções introduzidas pelas subcontratações e pelo trabalho em jornada parcial e em turnos, condição recorrente no trabalho das operárias da limpeza. Este artigo discute as respostas, ainda raras e emer­gentes sobre a precariedade e as desigualdades de sexo produzidas pela organização dos ambientes de trabalho deste setor de ativi­dade. Algumas dessas respostas podem ser qualificadas de cole­tivas, pois elas são fruto de iniciativas tomadas por interlocu­tores sociais do setor. Por outro lado, a última experiência apre­sentada é resultado de uma iniciativa individual e privada, baseada em informações e no reconheci­mento pelas chefias de uma empresa de limpeza da penosidade das condições de trabalho e das dificul­dades para as trabalha­doras em articular o tempo profissional e familiar. Karen Messing e Katherine Lippel O invisível que dói A partir de preocupações com a igualdade e com as reivindicações sindicais dos anos 70, formaram-se parcerias entre universidade e sindicato, que desenvolveram formações e pesquisas sobre a saúde de trabalhadoras do Quebec. Diferentes temáticas surgiram, entre elas, o reconhecimento da dificuldade de algumas tarefas exigidas, principalmente das mulheres: a conciliação das necessidades eco­nô­micas das mulheres e seu papel na reprodução biológica, os obstáculos à integração e à estabilidade das mulheres nos empre­gos em geral, como também o direito à indenização das trabalha­doras diagnosticadas com lesões por esforço repetitivo (ler). O estudo de várias dessas temáticas exigiu que pesquisa­doras em Ergonomia e em Direito reexaminassem os métodos e as perspec­tivas de suas disciplinas, na tentativa de ajudar as trabalhadoras a conquistar a igualdade profissional, conservando a saúde. Ivana Obradovic e François Beck Moças entorpecidas Existe uma feminilização do público acolhido, por uso de ma­conha, nos organismos de assistência? Em 2007, quase 20% da população dos usuários de drogas recebida nas “consultas de jovens consumidores” são mulheres. O artigo descreve as especifi­ci­dades deste público feminino, mostrando as diferenças com os homens usuários, do ponto de vista dos perfis sócio demográficos, das práticas de uso e das motivações de consumo. O público feminino, em média com idade superior, representa a maior pro­por­ção de pedidos espontâneos e pedidos de ajuda para diminuir o consumo. As mulheres acolhidas no organismo declaram, de fato, níveis de consumo de maconha elevado, frequentemente uso mais intensivo e associado ao poliabuso de substâncias ilícitas ou medicamentos psicotrópicos. O uso feminino da maconha é centra­do em motivações “auto terapêuticas” ligadas ao controle da an­gús­tia. O público masculino, ao contrário, concerne principalmente usuários de maconha encaminhados pela justiça, frequentemente de 18 a 25 anos, inseridos socialmente, que justificam o uso a partir de considerações hedonistas e contextos de sociabilidade. Livia Scheller, Liliana Cunha, Sónia Nogueira e Marianne Lacomblez O tempo das motoristas de ônibusna França e em Portugal As pesquisas em Psicologia do trabalho e em Ergonomia da ativi­dade apresentadas aqui comparam os sinais de uma transformação da organização do trabalho nas profissões relacionadas ao trans­porte coletivo. Numa primeira experiência (francesa), a chegada das mulheres numa atividade historicamente exercida por homens induziu indiretamente a uma nova maneira de conceber o tempo entre espaço profissional e espaço doméstico. Uma pesquisa portu­guesa parece mostrar, ao contrário, que isso pode ser um evento paralelo a uma desestabilização negativa da gestão do trabalho humano. Sobre a questão do tempo de trabalho, as mulheres procuram de maneira mais evidente uma adaptação às atividades próprias do espaço dito privado. A resposta às demandas é majo­rita­riamente indireta, porém “o seu custo” relacionado à saúde e/ou à trajetória profissional é evidente. n° 30, 2013 Gênero, feminismo e sindicalismo Alex Alber Um teto de vidro mais baixo no setor público? Por meio da pesquisa coi 2006, que fornece dados quantitativos comparativos entre os setores público e privado, o artigo estuda o espaço ocupado pelas mulheres nas funções de chefia nos dois setores, distinguindo, por um lado, a função executiva enquanto status – (ou executiva A no setor público) – e, por outro lado, a função executiva enquanto responsabilidade: ter subordinados. O artigo mostra que há mais mulheres em cargos de chefia no setor público do que no setor privado e que as mulheres executivas desempenham com maior frequência um papel de chefia com equipes, na média, mais numerosas. No entanto, coeteris paribus (mantidas inalteradas todas as outras coisas), os resultados devem ser reconsiderados: embora o acesso ao status de chefia seja difícil para as mulheres tanto do setor público quanto do setor privado, as mulheres do setor público, ficam em situação particularmente desvantajosa quando se trata de alcançar as funções com respon­sabilidades hierárquicas pois elas são orientadas, na maioria das vezes, a serem executivas especialistas do que a ocupar cargos de chefia. No entanto, em um contexto de valorização crescente das funções de chefia no serviço público, esta dificuldade maior no acesso das mulheres a postos de chefia é sem dúvida um dos elementos explicativos da permanência do “teto de vidro” contra o qual se chocam as mulheres executivas do setor público. Sophie Béroud Uma campanha de sindicalização no feminino Este artigo retraça uma experiência de sindicalização junto às cuidadoras domiciliares realizada de um departamento francês e com meios muito limitados. A iniciativa partiu das militantes da CGT que se disponibilizam para contornar as dificuldades estruturais existentes neste setor altamente feminizado: horários valorização das qualificações, relações ambíguas com a associação que é o empregador. Ao organizar reuniões fora dos locais de trabalho, estas militantes retomam as práticas do início do movimento sindical e acompanham as implantações passo a passo. As modalidades de ação privilegiadas por elas são muito pouco hierarquizadas e centradas na criação de espaços de discussão sobre o trabalho em si, favorecendo assim a participação destas assalariadas situadas na parte inferior da escala social. Mas essa experiência só é possível porque ela se situa, de certa maneira, às margens das estruturas sindicais, et reflete desta forma uma divisão sexual do trabalho militante. Christophe Giraud e Jacques Rémy Divisão conjugal do trabalho e legitimidade profissional O artigo trata do surgimento de novas atividades mercantis na agricultura, no cruzamento das identidades profissionais e da divisão sexual do trabalho no seio do casal. Evidenciamos a existência de dois tipos de diversificação: a primeira « em descontinuidade » com as atividades centrais da agricultura (venda direta, transformação, recepção de turistas) diz respeito principalmente às agricultoras; a segunda « em continuidade » com o cerne da profissão agrícola (trabalhos agrícolas artesanais específicos, atividades agroambientais) concerne sobretudo o chefe da propriedade. A concepção da profissão de agricultor permanece centrada em tarefas técnicas de cultivo ou de pecuária e a divisão sexual do trabalho afeta os homens no mundo profissional, distanciando as mulheres. Então, os chefes da propriedade deixam para suas cônjuges a possibilidade de construir e de dominar de forma autônoma estes espaços profissionais novos, considerados menos importantes em relação às atividades estritamente agrícolas. Cécile Guillaume A mobilização dos sindicatos ingleses em favor da igualdade salarial (1968-2012) Desde os anos 70, os sindicatos ingleses estão implicados em diferentes formas de mobilização jurídica visando à obtenção da igualdade salarial, através, principalmente, do acompanhamento de pessoas que denunciam nos tribunais. Este engajamento na luta contra as discriminações feitas às mulheres seria a consequência direta da feminização das e dos aderentes e das políticas de mixidade dos sindicatos? Baseado em uma pesquisa que cruza dados fornecidos pelas entrevistas com os principais atores desta mobilização e documentos de arquivos, este artigo ressalta a influência das greves de mulheres e de grupos feministas na obtenção de uma legislação em 1970 e a importância da estratégia judiciária conduzida por uma agência não governamental, a Equal Opportunity Commission , na evolução e aplicação do direito inglês nos anos 1980. Em seguida, esta pesquisa destaca o papel de certos homens, sindicalistas ou advogados engajados, que nos anos 90 se servem do direito anti-discriminatório a fim de lutar contra as políticas de reestruturação conduzidas pelos governos conserva­dores e de propor a sindicalização nos serviços públicos e priva­dos. No entanto, esta mobilização jurídica pouco modificou as práticas convencionais discriminantes, caucionadas por negocia­dores sindicais (homens). Cada vez mais numerosas, no topo e na base dos sindicatos, as mulheres dificilmente conseguem se impor nas instâncias de negociação coletiva descentralizadas, frente à empregadores irredutíveis, em um contexto de desregulamentação do mercado de trabalho inglês. Gill Kirton e Geraldine Healy Estratégias a favor da democracia de gênero nos sindicatos Este artigo visa expor o que aproxima e separa os responsáveis sindicais no Reuno-Unido e nos Estados Unidos quanto às estratégias de igualdade dos sexos, colocadas em prática em seus sindicatos, para fazer progredir a democracia de gênero. O estudo se baseia em uma pesquisa qualitativa de dois anos, realizada com 134 representantes sindicais dos dois países, pautada na observação-participante e na análise secundária dos dados quanti­tativos. Guiado concomitantemente por uma perspectiva de gênero e comparativa, este estudo destaca tanto as convergências quanto as divergências dos responsáveis sindicais britânicos e americanos em relação às medidas tomadas por seus sindicatos a favor da igualdade dos sexos. Além disso, examina a eficácia dessas estraté­gias para melhorar a representação feminina nas instâncias de direção e de decisão. O artigo relata também a posição de fraqueza das mulheres nas organizações sindicais e os obstáculos sociais e estruturais que elas encontram com freqüência quando querem promover e defender estratégias igualitárias reformadoras. Yannick Le Quentrec Militar em um sindicato feminizado: a sororidade como recurso As militantes da federação cgt da saúde e da ação social, ainda que oriundas de um setor profissional cujos quadros sindicalistas efetivos são majoritariamente femininos, têm condições de traba­lho mais desfavoráveis do que os homens. Elas têm menos meios para agir e mais restrições sindicais, profissionais e familia­res. Elas enfrentam também uma unanimismo sindical que legitima a domi­nação masculina. Mas contraditoriamente, a orga­ni­za­ção sindical faz progredir a igualdade interna e externa quando diri­gentes voluntaristas feminizam as direções sindicais e favorecem a mili­tância das mulheres, integrando as expectativas de maleabili­dade das militantes e favorecendo os laços de solidariedade feminista entre elas. Estes resultados, mais visíveis a partir do campo de pesquisa, resultam da observação-participante. Eles incitam a questionar as interações entre os/as pesquisa­dores/pesquisado­ras e os/as sindicalistas. Vanessa Monney, Olivier Fillieule e Martina Avanza Os sofrimentos da mulher-cota Este artigo parte de uma constatação bastante rara: em alguns anos, o mais importante dos sindicados suíços – unia, conseguiu alcançar um grau elevado de feminização de suas instâncias e de seus quadros políticos, ainda que 80% de seus membros sejam homens. Nós mostramos a princípio, a partir de dados objetivos, como uma política proativa de cotas, apoiada na necessidade de desenvolver a feminização do setor terciário, se combina com a profissionalização do trabalho de sindicalista para explicar este sucesso. Ao mudar de escala, nós mostramos em seguida, baseados em entrevistas biográficas realizadas com secretários e secretárias sindicais, que a feminização do sindicato, quando realizada de forma forçada, gera igualmente efeitos perversos: forte turn-over do pessoal feminino, burn out , estigmatização da “mulher-cota”, sexismo, difícil conciliação entre vida privada e vida profissional marcam de forma efetiva as carreiras femininas na Unia. Nós evidenciamos, então, os limites de uma política voluntarista de feminização quando esta não é acompanhada de uma mudança profunda na cultura organizacional do sindicato que permanece , hoje, profundamente, androcentrado.

N° 27, 2012 Poderes, gênero e religião Clément Arambourou O eclipse de uma política municipal de gênero Os trabalhos sobre as políticas locais de gênero empreendidas mostraram a frequente postergação de seus programas de ação. Interessam-nos tais problemas envolvendo a perenidade das polí­ticas locais de gênero a partir do cruzamento das sociologias da ação pública e da vida política. O eclipse de uma política municipal de gênero é, dessa forma, colocado em relação com as lutas pela liderança local e as dificuldades de institucionalização do dispo­sitivo de ação pública considerado. A mobilização desse recurso que as políticas municipais de gênero podem constituir está, dessa maneira, ligada às disposições do prefeito, à sua posição no espaço político local e às janelas de oportunidades políticas sucessivas. Béatrice de Gasquet Masculinidades e o sentido das « honras » A partir de uma “enquete” etnográfica nas sinagogas não orto­doxas na França, este artigo analisa a divisão sexuada do ritual nas correntes religiosas recentemente abertas à feminilização, e a maneira pela qual a participação no ritual da leitura da Torá constrói uma subjetividade judia de gênero. Sendo um objeto de codificações religiosas complexas, variando de um movimento a outro, a elegibilidade para tal ritual demarca fronteiras de gênero e étnicas. No judaísmo ortodoxo, apenas os homens podem disputar entre si a possibilidade de representar ritualmente o povo judeu. Nas sinagogas observadas, se as mulheres participam do ritual, se apropriam dele de modo diferente; consideram-no em menor número como uma honra que se quer buscar, em uma lógica hie­rár­quica e comunitária, e são mais numerosas a considerá-lo como um ato individual. Hilary Kalmbach No caminho de Damasco Este artigo se apoia no conceito de autoridade para analisar a autoridade religiosa das mulheres no islã contemporâneo, interes­sando-se mais particularmente por Huda al-Habash, professora em uma mesquita síria. Os exemplos históricos podem servir de inspi­ra­ção às mulheres engajadas nos movimentos das mesquitas contem­porâneas, que pregam uma renovação islâmica, mas esses movimentos, e aquelas e aqueles que o conduzem são produto de evoluções próprias do século xx. As professoras de mesquita como Huda al-Habash podem contribuir para transformar sutilmente o estatuto das mulheres no seio desses movimentos e nas comuni­dades em que elas aparecem. Françoise F. Laot As esposas dos ouvintes Um dos lapsos da história dos anos 1960, revelado pelo filme Retour à l’école? , é o esquecimento das mulheres como alvo da política de promoção social, ou seja, de formação de adultos. Como esposas, no entanto, são reconhecidas pelo papel central de suporte aos seus maridos, ouvintes dos cursos noturnos. É precisamente esse papel bastante específico que nos propomos a analisar neste artigo. Cruzando-se os discursos produzidos sobre as esposas nas instâncias nacionais de condução da promoção social e os dis­cur­sos fílmicos que mostram três esposas de ouvintes entre­vis­tados ao lado de seus maridos em 1966, este artigo se propõe a reconstituir as concepções pedagógicas que inspiram tais políticas. Sarah-Jane Page Mulheres, mães e pregadoras na Igreja da Inglaterra. Que sacerdócio! Este artigo mostra como a Igreja da Inglaterra integrou profis­sional­mente as mulheres sacerdotisas e coloca em evidência a for­ma pela qual essas mulheres negociam sua presença em um contexto de discriminação. Ainda que a oposição geral à presença das mulheres no sacerdócio tenha diminuído, redutos de oposição persistem. Além disso, o modo pelo qual as mulheres negociam sua presença na organização depende estreitamente de sua posição hierárquica na Igreja. No mesmo raciocínio, ser sacerdote e mãe constitui uma dimensão suplementar que explica o posiciona­men­to delicado dessas mulheres em uma estrutura de trabalho que é também um espaço de expressão do sagrado. O artigo, portanto, interessa-se por questões como o início da licença maternidade e a volta ao emprego depois do parto. Linda Woodhead As diferenças de gênero na prática e na significação da religião Este artigo trata a influência crescente dos estudos de gênero na sociologia das religiões e faz uma síntese das principais publicações sobre esse tema na literatura de língua inglesa. O artigo mostra que a introdução de uma perspectiva de gênero tem consequências relevantes; dentre elas, pode-se citar, entre outras, o fato de se repensar o conceito de “religião” e as formas de religiosidade valorizadas (frequentemente aquelas em que os homens são mais visíveis e dispõem de mais poder), mas isso também implica uma adaptação dos métodos e o questionamento das teorias dominantes, como aquela da secularização. E ainda, a história religiosa das sociedades ocidentais pode ser relida em função das transformações das relações de gênero, operando-se assim uma ligação entre gênero e religião. O artigo propõe um novo quadro de análise para articular gênero e religião, o que coloca em evidência a maneira pela qual as relações de poder em um ou outro domínio se opõem ou se somam. N° 28, 2012 Variações França/Estados Unidos Magali Barbieri As Maternidades precoces nos Estados Unidos Os Estados Unidos lideram a classificação de fecundidade de adolescentes nos países desenvolvidos com a taxa de 42 por mil entre 2005 e 2010. Após mostrarmos alguns elementos quantita­tivos para situar os Estados Unidos em relação a outros países desenvolvidos, descrevemos em detalhes o nível e as tendências de fecundidade em menores de 20 anos neste país a partir de uma análise de dados do estado civil. Em seguida, avaliamos o efeito de variáveis intermediárias (nupcialidade, sexualidade, utilização da contracepção e recurso ao aborto) antes de discutir, na última parte, sobre a função do contexto cultural, político e socioeco­nô­mico. A França, cuja situação é representativa dos países nos quais a fecundidade dos adolescentes é significantemente baixa, é utili­zada como ponto de comparação. Laura Lee Downs, Rebecca Rogers e Françoise Thébaud Gender Studies et Estudos de Gênero : o gap Travail, Genre et Societés solicitou a três historiadoras – das quais duas franco-estadunidenses – que refletissem juntas sobre a seguinte questão : « como e por que os estudos de gênero, os estudos sobre sexualidade e sobre mulheres se desenvolveram de forma tão diferente dos dois lados do Atlântico ? » Diversas dimensões da questão são abordadas na entrevista a três vozes que resulta desse pedido: a ideia de um atraso francês na matéria se comparado ao avanço estadunidense ; bloqueios e resistências institucionais ; papel das revistas e das redes de amigo(a)s ou de militantes na circulação transatlântica das ideias; pluralidade de perspectivas que caracterizam estes estudos dos dois lados do Atlântico. Através dessa discussão rica e variada, vemos clara­mente o papel pioneiro dos estudos de gênero na evolução epistemológica das ciências humanas desde os anos 70. Marie Duru-Bellat A educação de meninas nos Estados Unidos e na França Este texto apresenta de maneira sucinta os debates que ocorreram nos Estados Unidos e na França sobre dois grandes aspectos da educação de meninas: por um lado a educação formal, quanto a sua organização em classes de co-educação ou não e, por outro, a educação mais informal, realizada pelas mídias, vestimentas, jogos… No que diz respeito à co-educação, a perspectiva estaduni­dense se apóia sobre considerações biologizantes ou empíricas, enquanto que na França dominam as considerações de princípio. Quanto à tendência a uma sexualização cada vez mais marcada e precoce de meninas, ela é amplamente demonstrada e debatida nos Estados Unidos, enquanto que, na França, continua em segundo plano. Atrás desses debates, existem verdadeiras clivagens entre aqueles e aquelas que apregoam a semelhança e a indiferenciação entre homens e mulheres, e aqueles e aquelas que, ao contrário, defendem que as diferenças à respeitar sejam exibidas e até mesmo sejam promovidas pela via da educação. Linda K. Kerber A história das mulheres nos Estados Unidos : uma história de direitos humanos Há duzentos anos, quase todas as questões tratadas pelas feministas são de direitos humanos. A tradição jurídica nos Estados Unidos está saturada do conceito de “coverture ”, a saber, leis que pretendem proteger os interesses das mulheres, mas que, na realidade, limitam sua autonomia e sua participação na comunidade política. A autoridade dos cônjuges prevê poderes tanto extensivos quanto arbitrários sobre o corpo e os bens de suas mulheres. Consequentemente, a rejeição de um amplo leque de direitos humanos às mulheres parece fazer parte da ordem natural. As mulheres então tiveram que nomear suas queixas, elaborar as bases filosóficas de suas reivindicações, começar a luta política pela igualdade. Nos anos 60 e 70, o direito estadunidense evoluiu na maneira de conceber os direitos e obrigações das mulheres. Leis, que antes eram entendidas como protetoras, foram desde então interpretadas como discriminatórias, o que deixou o direito esta­duni­dense mais próximo dos princípios da Declaração universal de direitos humanos. No entanto, a herança da “coverture” nunca foi completamente erradicada, sobretudo no que concerne a reprodução assim como as violências domésticas. Marie Mercat-Bruns Discriminação baseada no sexo nos Estados Unidos: uma noção jurídica sobtensão A luta contra as discriminações raciais nos Estados Unidos serviu, inicialmente, de modelo, por analogia, à construção de um corpo jurídico próprio aos direitos das mulheres. Contudo, esta analogia entre raça e sexo se deparou com alguns limites, especialmente de caráter constitucional. À primeira vista, esta visão menos ambi­ciosa da igualdade entre homens e mulheres parece desapontar a causa feminista. No entanto, no fim das contas, ela se revela bené­fica no que concerne certos avanços legislativos que ela permitiu e que beneficiaram, por sua vez, graças à jurisprudência, a causa dos Negros estadunidenses. Desde os anos 70, a reflexão jurídica, de inspiração foucaltiana, sobre a doutrina americana, faz emergirem as relações de poder inerentes à luta contra as discriminações fun­da­das sobre o sexo, e as tensões que suscitam o direito entre a igualdade concreta e a igualdade formal. Mas essas interrogações não são uma ameaça que recai sobre o debate feminista. A aparição do critério de gênero em direito, ao lado do sexo e o interesse que suscitam a parentalidade e as discriminações sistêmicas, além das discriminações individuais fundadas sobre o sexo, não são, de modo algum, um repúdio às regras que visam especificamente as mulheres. Renovar o debate jurídico feminista sobre o sexo e até mesmo enriquecê-lo é uma oportunidade a ser aproveitada. Hélène Périvier Trabalhem ou casem-se ! O artigo apresenta uma análise sexuada da evolução dos direitos e deveres que ligam as pessoas que recebem ajuda social e o Estado na França e nos Estados Unidos. Nos dois países, durante muito tempo, a contrapartida exigida pela solidariedade nacional se baseou, para as mulheres, sobre seu papel de “mãe”, e, para os homens sobre o papel de “provedor de recursos da família”. As reformas sucessivas dos programas de luta contra a pobreza nos Estados Unidos e na França modificaram a natureza dessas obrigações, reforçando, nos dois casos, a lógica do mérito via exigência de inserção no emprego, característica mais marcante nos Estados Unidos que na França. A injunção à autonomia concerne doravante mulheres e homens, mas poupa as mulheres casadas, cuja a inatividade é aceita e mesmo encorajada pelos dispositivos sociais e fiscais. Abigail C. Saguy As concepções jurídicas de Assédio Sexual na França e nos Estados Unidos Quando o antigo diretor do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss Kahn (dsk), foi preso por tentativa de estupro contra uma camareira de um hotel Sofitel em Nova Iorque em maio de 2011, especulou-se sobre o papel desempenhado pelas diferenças de atitude em relação à sexualidade na França e nos Estados Unidos. Este artigo explica que se o escândalo tinha mais possibilidades de sobrevir em Nova Iorque que em Paris, isso se deve muito mais às diferenças jurídicas que às diferenças culturais intemporais entre os dois países. Nos Estados Unidos, a responsa­bilidade do empregador é implicada nos casos de assédio sexual, o que incitou as empresas a instaurarem regulamentos internos e códigos de conduta. Completado pela lei de 1994 sobre a violência contra as mulheres (Violence Against Women Act , vawa), esse dispositivo permitiu uma maior tomada de consciência do proble­ma do assédio e da violência sexuais. Em contrapartida, na França, onde a responsabilidade do empregador é mínima, as empresas quase não tomaram medidas contra o assédio sexual, protelando assim a tomada de consciência da opinião pública. É em razão dessa diferença que uma denúncia por assédio sexual tinha mais chances de ser feita em Nova Iorque que em Paris. O artigo afirma, entretanto que, chamando atenção sobre a questão da violência sexual, o caso dsk – ao qual se somou em março de 2012 um indi­cia­mento por proxenetismo em quadrilha – poderia ele mesmo contribuir na modificação do quadro jurídico francês e a reforçar a proteção das vítimas de violência sexual.

N° 25/2011 Sul(b) exploradas Marie-Laure Coubès Crise internacional e emprego industrial feminino no México A segregação sexual nos empregos protege as mulheres em tempos de crise? Ou, ao contrário, as mulheres são consideradas como um tradicional exército industrial de reserva mais vulne­rá­veis à recessão ? A partir do exemplo do emprego na indústria maquiladora de exportação no México durante a crise mundial 2008-2009, o artigo discute o impacto da crise econômica nos empregos das mulheres no mercado de trabalho globalizado. Os dados utilizados são da pesquisa nacional do emprego realizada trimestralmente de 2007 a 2010 que permite uma análise precisa da ocupação de homens e de mulheres nos quarto principais setores da indústria de exportação. Jules Falquet Pensar a mundialização numa perspectiva feminista O artigo propõe uma análise sintética da mundialização neo­liberal na perspectiva feminista proposta pelas análises feminis­tas materialistas francófonas, na teorização da imbricação das relações sociais de poder, e na corrente feminista autônoma latino-americana e do Caribe. A discussão é focada em quatro tópicos. 1) O capitalismo é um aliado real da igualdade entre os sexos ? Ou aprofunda as disparidades, reorganizando as desi­gualdades de sexo, de “raça” e de classe? 2) As mulheres no desastre ambiental, na guerra industrial no mundo rural, no êxodo rural e na urbanização forçada. 3) A imposição de um “de­sen­­volvimento” favorável às mulheres, em torno da mono­cultura de exportação, da exploração do subsolo, das zonas francas e do turismo. 4) O continuum neoliberal da violência militar-masculina, que cria, fomenta e confronta os “homens em armas” e as “mulheres serviçais”. Isabelle Guérin Os efeitos insuspeitos da micro finança Baseado em vários anos de pesquisa no sul da Índia, o artigo mostra que os efeitos da micro finança são antes de tudo de natureza política. No nível macro, a micro finança indiana é amplamente promovida pelas autoridades públicas por duas razões principais. Ao mesmo tempo em que permite respeitar os preceitos neoliberais, a micro finança é uma ferramenta popu­lista ao serviço dos partidos no poder e dos que pretendem ocupá-lo. No nível dos territórios é possível observar certa quantidade de redes e associações diversas e variadas (de natureza politica, religiosa, comunitária) que se apoderam da micro finança para reforçar o controle sobre as populações locais. Finalmente, no nível micro local dos « beneficiários », a micro finança participa da emergência ou do reforço de trajetó­rias políticas locais, inclusive para as mulheres e categorias mais marginalizadas como as baixas castas. No entanto, essa emer­gência de mulheres líderes não conduz a nenhuma forma de mobilização coletiva: ela contribui principalmente para reforçar os sistemas “filantrópicos patronais” e clientelistas locais. Elodie Jauneau As mulheres na 2a Divisão Blindada do General Leclerc Em 1943, em Nova Iorque, Florence Conrad, uma rica estado-unidense apoiada pelas potentes ligas feministas adquire diver­sas ambulâncias mais tarde batizadas « Grupo Rochambeau ». Seu objetivo é de constituir uma unidade de mulheres moto­ristas de ambulâncias e de aliar-se à França Livre na África do Norte. Depois do recrutamento de voluntárias em Nova Iorque e no Marrocos, a unidade se engaja na 2a Divisão Blindada do General Leclerc. O itinerário dessas mulheres, que desconsi­deravam as leis de gênero em território masculino, se expande nos quatro continentes ao ritmo da liberação da França e da guerra da Indochina. Este artigo propõe apresentar essas pionei­ras da feminilização das Forças Armadas Francesas. Mobiliza­das numa unidade de combate, atrizes da Liberação, solda­das na Indochina, essas mulheres, embora sem armas, foram solda­das pioneiras. No final dos dois conflitos, a questão do devir dessas mulheres e da memória da “pátria reconhecida” ilustra as dificuldades que a França tem para incorporar nas fileiras dos seus heróis, heroínas. Marie Lesclingand Migrações de moças ao Mali: exploração ou emancipação? As migrações femininas de natureza econômica em expansão há várias décadas são fortemente ligadas ao mercado doméstico. Assim, no Mali, moças vindas de zonas rurais migram aos grandes centros urbanos onde elas são empregadas como domésticas por particulares. Num povoado rural do Mali, esse tipo de mobilidade teve um aumento espetacular desde o final dos anos 1980. Este artigo analisa o seu desenvolvimento a partir de dados de pesqui­sas realizadas tanto junto às populações rurais do Mali quanto a Bamako, destinação principal dessas migrações. A confrontação de diferentes pontos de vista e de discursos permite relativizar uma perspectiva ”miserabilista” que associa mobili­dade feminina e trabalho infantil a formas de prostituição e de exploração, eviden­ciando os aspectos formadores e emancipado­res dessas experiên­cias migratórias. N° 26/2011 Entendimentos nos serviços da casa? Thomas Amossé ;e Gaël de Peretti Homens e mulheres na vida doméstica estatística: uma valsa em três tempos As categorias estatísticas participam à sua maneira das represen­tações sociais. Acompanhar suas mudanças é uma forma de observar as mutações de uma sociedade. Através das noções ‘de “domicílio” e de “indivíduo”, nós propomos uma história em três tempos do espaço concedido pela estatística às categorias de sexo. Do pós-guerra aos anos 1970, as mulheres são pouco visíveis, ocultas atrás do “chefe da família” ou relegadas ao papel de mãe e a suas funções reprodutoras. Na virada dos anos 70, a estatística passa a se concentrar progressivamente nos indivíduos e revela desigualdades entre homens e mulheres que precisam ser redu­zidas. Enfim, mais recentemente, a questão do lugar dos indiví­duos no seio das famílias e dos domicílios e da articulação dos papéis dos homens e das mulheres se impõe à sociologia e à economia. Já não se trata somente de revelar desigualdades que ainda persistem em certos campos, mas de compreender como se constroem as diferenças no próprio seio dos casais. Com este terceiro tempo, a estatística se torna menos normativa, as orienta­ções políticas incertas, as controvérsias científicas vivas. Nós ainda estamos no início deste período. Nesse sentido, sem duvida, ainda ha muita arrumação (ménage) a ser feita. Olivier Donni e Sophie Ponthieux Perspectivas econômicas do domicílio: do modelo unitário às decisões coletivas Este artigo propõe um olhar sobre a forma como a abordagem econômica ortodoxa descreve o comportamento dos domicílios. Num primeiro momento, o modelo de comportamento do indiví­duo foi simplesmente transposto ao nível do domicílio: é o que chamamos de perspectiva “unitária”. No entanto, dada a limitação dessa maneira de proceder, como a ausência de justificativas teóricas convincentes da agregação necessária das preferências indivi­duais, e da rejeição de previsões geradas por ela, os economistas desenvolveram uma abordagem mais geral, dita “coletiva”. Baseada unicamente na hipótese da eficácia da alocação dos recursos, ela leva em consideração vários tomadores de decisão no domicílio. As pesquisas mais recentes consideram novas genera­lizações nas quais a situação eficaz é somente um caso particular. Florence Jany-Catrice e Dominique Méda Mulheres e riqueza: além do pib A medida mais utilizada atualmente para avaliar a riqueza de um país é o Produto Interno Bruto, que representa o valor monetário dos bens e serviços fabricados em um ano dado. Esse indicador foi criado no final da Segunda Guerra Mundial. Como todos os indicadores, ele surgiu de “convenções”, entre elas a de não considerar como parte da riqueza nacional as atividades realizadas nos domicílios, que ficaram por muito tempo somente a cargo das mulheres, ainda hoje sua repartição continua sendo muito desequilibrada entre as mulheres e os homens. O artigo pretende no primeiro momento voltar à questão das razões – implícitas ou explícitas – dessa exclusão. Em seguida, ele apresenta uma das maneiras de fazer justiça a certas reivindicações feministas que consideram legítimo levar em conta a medida da contribuição da produção doméstica à riqueza nacional realizando uma estimativa monetária. Depois de verificar diferentes métodos de estimativa, até a mais recente, proposta pela Comissão Stiglitz e a ocde, assim como suas vantagens e inconvenientes, analisamos na última parte uma outra maneira de superar as limitações intrínsecas ao pib: o desenvolvimento de novos indicadores mais focados na saúde social, pretendendo de maneira exploratória, chegar a métodos mais apurados para melhor levar em consideração as desigual­dades entre homens e mulheres. Abir Kréfa Corpo e sexualidade na obra das escritoras tunisianas A partir de umas trinta entrevistas semi-diretivas realizadas com escritore.a.s tunisiano.a.s contemporâneo.a.s e da assim como da análise de romances publicados por escritore.a.s, o artigo mostra como a exclusão das mulheres do espaço literário não se explica unicamente pelas dificuldades a conciliar encargos domésticos e atividade criadora. Ainda que a expressão literária do corpo e da sexualidade faça parte das expectativas de críticos e pares e seja um critério importante de avaliação de uma “boa” obra, as escri­toras devem enfrentar uma censura social disseminada, particu­larmente forte nos espaços familiar e conjugal. O acesso de certas romancistas ao reconhecimento literário é condicionado pelas diferentes estratégias que elas conseguiram colocar em prática, tanto nas suas interações ordinárias com os que as cercam quanto nos seus textos romanescos. Danièle Meulders e Síle O’Dorchai Quando só conta o domicilio Nosso objetivo é evidenciar as hipóteses que sustentam as análises relativas à distribuição da renda e à pobreza e mostrar como elas enviesam os resultados obtidos. Essas hipóteses conduzem a subes­timar, ou mesmo a ocultar, os riscos de pobreza das mulheres. As consequências são ilustradas através de três exem­plos de “maus cálculos”, que mostram a cegueira em relação à situação específica das mulheres. O primeiro se refere à estimação do risco de pobreza e mostra a variação das estimativas quando se leva em conta a renda domiciliar ou as rendas individuais. O segundo é relativo aos efeitos de uma quebra na renda dos membros do domicílio, e mostra que os resultados dos cálculos tradicionais subestimam a capacidade das mulheres de viver sozinhas. O último exemplo se refere aos trabalhadores pobres, frequentemente homens segundo o enfoque tradicional, embora a situação das mulheres no mercado de trabalho seja mais precária. Marianne Thivend As moças nas Escolas superiores de comercio na França no entre-guerras Nove Escolas Superiores de Comércio (esc) do interior se abrem às moças a partir de 1915. Até os anos 50, elas representam aproxima­damente um quarto dos alunos das esc mistas. Este artigo procura compreender como elas foram acolhidas nestas escolas. Quais foram as suas trajetórias escolares em um contexto misto “fabri­cado”, que tenta estabelecer trajetórias específicas para as mulheres (secretaria de direção) no contexto da formação geral dos futuros chefes e diretores de empresas. Todos e todas saem das Escolas com este único diploma, e as jovens, majoritariamente vindas das classes médias, das fileiras da escola normal e do segundo grau, obtêm melhores resultados que os jovens. Mas o uso profissional que elas fazem do diploma é mais difícil de ser definido. Segundo as listas de ex-alunos, o leque de profissões é menos vasta para as mulheres do que para os homens, mas a presença de mulheres gestoras, de chefes mulheres, e de executivas entre as ex-alunas mostra que esses percursos profissionais são doravante possíveis para uma parte das diplomadas. Laurent Toulemon Indivíduo, domicílio, família, moradia: contá-los, descrevê-los Há quarenta anos, os domicílios vêm sendo aparentemente simpli­ficados: diminuição gradativa do tamanho médio, redução dos domicílios ditos “complexos”. No entanto, certas situações indivi­duais não são apreendidas pelos recenseamentos, que alocam cada habitante a um domicílio e somente um. Um rápido apanhado das principais mudanças observadas nos últimos quarenta anos é acompanhado de uma comparação mais pormenorizada dos contextos familiares como eles aparecem nas grandes pesquisas estatísticas do Insee: o recenseamento, a pes­quisa sobre Emprego, e outras pesquisas domiciliares, que utilizam todas um mesmo “tronco comum”, a nova versão contem infor­mações muito precisas sobre as relações no interior dos domicílios e as multi-residências. Sobressai-se desses dados que os homens vivem com mais frequência que as mulheres em situações inde­finidas: multi-residências, casal que não coabita, crianças residindo em tempo parcial nos casos de separação dos pais.